Acesse o Blogs Online
Adriane Lorenzon
40 anos
Brasília - DF

Sobre o blogueiro:
Palestrante, professora,
escritora, radialista.
Pedagoga e jornalista.
Neste blog você encontra
textos de temas diversos
como educação,
comunicação,
autoconhecimento, meio
ambiente, literatura,
saúde, y otras cositas...
 
Visitas: 23.897
Criado em: 27/12/2009
 
Publicidade
Acesse o portela Online
 
Pesquisar:
Histórico
  • 2011
    • Janeiro (2)
    • Fevereiro (3)
    • Março (5)
    • Abril (5)
    • Maio (5)
    • Junho (4)
    • Julho (5)
    • Agosto (4)
    • Setembro (5)
    • Outubro (5)
    • Novembro (4)
    • Dezembro (6)
  • 2012
    • Janeiro (4)
 
Categorias
   • animais
   • arte, cultura,
   • autoconhecimento
   • Brasil Plural
   • Brasil Plural
   • cachorros
   • cinema
   • comunicação
   • culinária, gastronomia, receitas
   • educação
   • espiritismo
   • família
   • fatos
   • filosofia
   • gênero
   • generosidade
   • interações sociais
   • literatura
   • música
   • natureza
   • participação popular
   • poesia
   • rádio
   • roteiros turísticos
   • saúde
   • Saúde e espiritualidade
   • trabalho
   • valores morais
   • viagens
   • viva melhor
 
Links
   • Add. em Meus Favoritos    • Denunciar este blog
   • Acessar meu blog
   • Todos os Blogs
As escolhas e a deontologia
 

encruzilhada

(Arte: autoria desconhecida)

O comandante do Costa Concordia, Francesco Schettino, tornou-se famoso por conduzir de uma determinada maneira o navio desastrado no litoral italiano. Ainda não se sabe o resultado da investigação, mas suspeita-se que o capitão não tenha seguido uma das regras universais de sua profissão: ser o último a abandonar a embarcação em caso de acidente. Não julgo a conduta dele porque não tenho competência para tal intento. Meu objetivo aqui é outro. Porém, inspirei-me no sinistro da ilha de Giglio para pensar sobre a deontologia das profissões.

Todo ofício tem uma característica, função, papel, responsabilidade, normativas, regramentos, condutas, aquilo que é inerente à atividade escolhida. Isso é a tal deontologia. Já tinha ouvido falar? Do grego, déontos quer dizer “o obrigatório, necessário” e logos pode ser estudo, ciência, tratado, discurso, expressão, conhecimento. No dicionário Aurélio a definição é a seguinte: “estudo dos princípios, fundamentos e sistemas de moral” ou “tratado dos deveres”. Agora, caro leitor, nosso encontro começa a ficar interessante.

Embora de origem mediterrânea, o termo foi usado pela primeira vez pelo inglês Jeremy Bentham, em 1834. Segundo o filósofo, a deontologia é a “ciência do que é justo e conveniente que o homem faça, dos valores que decorrem do dever ou norma que dirige o comportamento humano”. Segundo o internauta Francisco Nogueira Machado, a deontologia desvenda “os pressupostos inseridos nas normas de conduta social pertencentes a todas as fontes das quais emanam, ou seja, religião, moral, ética, direito, costume”.

No mundo do trabalho, sinto muito se você escolheu ser enfermeiro e está cansado do plantão da madrugada ou se o policial levou um tiro no ombro, vítima de emboscada de traficantes. O programa é ao vivo e começa às cinco da manhã? Você é o locutor do horário e vive em região com o inverno mais rigoroso dos últimos 50 anos? Tadinho. E da vida de professor, o que dizer? Não dá para se fazer de vítima como se não se soubesse dos riscos e propriedades particulares da esfera em que atuamos. Nem por isso deixaremos de lutar por melhorias.

Note. A deontologia profissional está em quase todas as áreas regulamentadas. Eletricistas, médicos, advogados, psicólogos, pilotos, assistentes sociais... Imagina se cada médico conduzisse os procedimentos cirúrgicos do jeito que bem entendesse! Se jornalistas não tivessem freados os ímpetos de inventar detalhes nas informações noticiadas! Psicólogos torturariam cabeças, engenheiros edificariam futuros desabamentos, e por aí vai...

“A deontologia é uma disciplina da ética especial adaptada ao exercício de uma profissão”, explica o portal português psicologia.pt. E o que uma coisa tem a ver com a outra? Ética, moral e deontologia estão entrelaçadas até o pescoço. Não dá para imaginá-las separadamente. No Brasil, usamos o termo código de ética. Em Portugal, código de deontologia. Ambos estão sob a responsabilidade de associações; no nosso caso, CREA, OAB, CFP, FENAJ – alertando correligionários a não cometerem faltas e se as tiverem praticado, adotando a medida punitiva mais adequada para qualquer situação.

Conforme o site O Significado, a deontologia é “uma teoria sobre as escolhas dos indivíduos (...) moralmente necessárias e (...) para nortear o que realmente deve ser feito”. Lembro-me de uma técnica de um posto de saúde desabafando diante das câmeras. Segundo ela, os usuários reivindicam um melhor atendimento dos profissionais de saúde, mas o problema não está nestes e, sim, no sistema. Será? A moça do jaleco branco escolheu trabalhar junto a um estabelecimento de saúde, num lugar chamado Brasil, com características peculiares. Quando doentes e necessitados queremos remédio e cuidados e, não, entender de políticas de saúde pública.

No entanto, apesar da ética e da deontologia, somos humanos. Falhamos. Por isso, assistimos a reportagens “marrons”, erros médicos sendo escondidos, advogados de porta de cadeia, professores sem respeito, psicólogos fofocando relatos de pacientes, políticos e governantes corruptos, servidores públicos prevaricando... Se a pessoa não está satisfeita, deve procurar, até o fim de seus dias, algo que lhe faça feliz. Adoro o ditado popular: “Se não guenta, por que veio”? Isto é: suporte o tranco e desempenhe direito o serviço... ou vá plantar alface. Entende? (Adriane Lorenzon)

 
Escrito por:Adriane Lorenzon - 27/01/2012 10:10
 
Categoria(s):  autoconhecimento, interações sociais, valores morais, viva melhor
Tags: deontologia, escolhas, livre arbítrio, ética
 
 



O que me ajuda a olhar o mundo
 

itaimbezinho

(Cânion Itaimbezinho - RS/SC - Foto: Murilo Ribeiro)

Os anos passam e a gente vai aprendendo a aprender. Tem coisas que nos ajudam a viver e entender o mundo com dinamismo, precisão, cuidado. São livros, amigos, religiões e filosofias, lugares, filmes, poemas, experiências, amores, canções, familiares... Tudo tecendo a teia que amplia o horizonte de nossa mente e alma. Como trapezistas, seguimos o fio que direciona o passo, a dança, o equilíbrio. É lindo e motivador pensar que já somos menos egoístas, hipócritas, impacientes, intolerantes. Agora restam poucas classes para vencermos, finalmente, o primeiro degrau daquilo que chamamos evolução.

A sétima arte, o cinema, me ensinou a ser um tiquinho mais sensível. Isso com todos os filmes latino-americanos que vi: mexicanos, brasileiros, argentinos – além dos indianos e japoneses. Não deveria citar uma ou duas películas, pois me esqueceria de outras. Porém, as de Kurosawa, Iñarritu, Almodóvar e Campanella são espetaculares. Inesquecível é Como água para chocolate de Alfonso Arau – bela trilha sonora, eu me lembro bem. Cheguei a comprar o CD e o livro que traz receitas culinárias da autora Laura Esquivel.

Falando em literatura, existem obras que nos pegam pela mão como um carinhoso professor nos socorrendo na complicada lição. Há livros incomparáveis, vide Grande sertão: veredas de Guimarães Rosa. Esse é hors-concours! Escreve o velho Rosa: “Viver – não é? – é muito perigoso. Porque ainda não se sabe. Porque aprender-a-viver é que é o viver mesmo”; “Eu quase que nada sei, mas desconfio de muita coisa”; “As pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas”.

Contudo, o que seria de mim sem os amigos? Uns se dispersaram; outros, permaneceram. Aprendi e aprendo tanto com eles. As matracas ligadas e muita conversa boa rolando. Um sonzinho de qualidade superior ao fundo ou o silêncio. O barato é ter um ombro, uma solidariedade em alto grau de dedicação. “Quero ter alguém com quem conversar, alguém que depois não use o que eu disse contra mim”, me lembra a amiga Marisa, recordando o mestre Renato Russo. Aliás, os versos do Trovador Solitário são uma escola completa.

Alguns lugares parecem nos levar a um universo paralelo. Paisagens paradisíacas, sotaques diferentes, sabores exóticos, praias desertas ou matas fechadas. Museus, exposições, shows, arte por toda a parte como em cidades históricas. Ambientes educativos e um aprendizado ao qual estamos prontos naquele momento. Lembro-me de uma viagem que fiz com amigos, aos 24 anos. Um deles, o Maurício Miguelito, desceu comigo a fenda do Cânion Itaimbezinho. Sem água ou equipamentos de segurança. Nada era perigoso. Espiar a vida lá de baixo foi como mirar o céu e avistar Deus.

Quanto às religiões, elas nos ajudam a sobreviver ao caos que edificamos com nosso livre arbítrio. A melhor delas é a que nos liberta criando um viver entusiasmado, apesar dos obstáculos. Não dá para perder o ânimo por qualquer eventualidade. As doutrinas que incentivam a fé cega nas criaturas amarram-nas numa espécie de prisão ficando difícil o autodesenclausuramento diante do desespero. Depois de entendido isso, fica mais fácil seguir o caminho de, no meu caso, nosso amigo JC.

Já o quesito “familiares” é, talvez, o que realmente nos desafia ao crescimento. Verifique. Analise a si, a sua família e os acontecimentos da parentela ao longo dos anos e confirme. Aprende-se muito com todos. A ter paciência, por exemplo. Ai, ai. A esperar o tempo deles ou a agilizar o nosso andar para acompanhá-los. Viver em família é uma empreitada complexa a que nos propomos. É igualmente rica e intensa. Ali se formam preciosos elementos, como, o nosso caráter, os princípios morais, a ética, a generosidade ou o egoísmo.

Grandes sacadas humanas de todos os tempos, poesia e filosofia são duas senhoras milenares que nos sustentam e suavizam o caminho. Não tiram as asperezas, mas nos fazem ver as pedras, também chamadas dores, com renovado olhar. Entretanto, não tem pra ninguém: é ele, o Amor, que nos coloca num mundo jamais imaginado. Amar – o namorado, um doente, um animalzinho, um morador de rua – é tão profundo que se trata da experiência mais revolucionária que a vida nos possibilita. Viva o amor em toda a sua plenitude! Experimente! (Adriane Lorenzon)

 
Escrito por:Adriane Lorenzon - 20/01/2012 09:08
 
Categoria(s):  autoconhecimento, cinema, educação, família, filosofia, interações sociais, poesia, valores morais, viagens, viva melhor
Tags: aprendizados
 
 



Planejar ou deixar a vida levar?
 

metas 2012

(Foto: autoria desconhecida)

Andei pensando bastante na filosofia pagodiana – é bonita, confortável e... ingênua. Euzinha, antes da música de Serginho Meriti e Eri do Cais, cantada por Zeca Pagodinho, estourar nas paradas populares, a adotava. É o velho “deixa rolar” – oportuníssimo, por exemplo, ao tentarmos controlar algo irrefreável, externo à nossa vontade. Mas, no que depende exclusivamente de cada um, o lance muda de figura. O viver, também chamado destino, pode e deve ser alterado até acertarmos o ponto – como numa receita culinária.

Você viajaria de avião, ônibus ou carro se soubesse que o piloto ou chofer não dominam a técnica de pilotar/dirigir? Já pensou nisto: a existência nos conduzindo como motorista cega? Muitas vezes, intuímos que haverá um desastre logo ali; porém, é bem mais cômodo ficarmos paradinhos, sem refletir, permitindo que as coisas simplesmente aconteçam – assim, culparemos o marido, a esposa, o pai, a mãe, os filhos, a vizinha, o governo... O rol de alvos nessa hora é infinito. Sempre haverá, pelo menos, uma vítima: você.

A dimensão se amplia quando sabemos da própria responsabilidade e papel que temos no mundo. Conseguimos resolver se vamos atuar como atores principais ou meros figurantes. Há anos optei por traçar meus passos antes de gastar a energia em realizá-los. Confesso: não tem sido fácil – estamos, frequentemente, conectados a outras pessoas e, dessa forma, precisamos estar preparados para ajustar os planos. Para tanto, é fundamental habilidade e competência. A experiência de vida poderá oportunizar maior êxito no empreendimento.

Todo planejamento estratégico requer determinar etapas: ações, objetivos, prazos, responsáveis, tarefas, estratégias, meios... Contudo, antes dessa serviçama há um estágio essencial exigindo toneladas de sinceridade da gente: definição de prioridades. Não adianta querer comprar o badalado carro do mercado se você não tem recursos nem para pagar as contas do mês. Inclusive, o dinheiro teria de financiar depois diversos itens: manutenção, taxas, melhorias. Embora mediano, sem uma programação detalhada, tal desejo permaneceria na categoria de sonho.

Uma dica importante é entender que sonho não é meta. Sonho é divagar, criar fantasias, devaneios, cenários. Nele, compra-se, faz-se, viaja-se. Naquela é diferente. É necessário ousadia, temperança, disciplina, planejamento, decisão, foco, discernimento. Para transformar um sonho em meta é preciso pensar sobre ele, analisá-lo, depurá-lo. Só então surgirá a meta. Como as prioridades variam, deveremos nos atentar ao fio condutor que guiará a diligência.

Depois de checadas as prioridades e elencadas as metas e demais itens do projeto, é hora de arregaçar as mangas. Arrá! Aqui é que a porca torce o rabo. Metade dos animadinhos de início de ano, aí pelo dia 12 do mês um, já se esqueceram de tudo: caem na real, entendem que não têm vontade suficiente para se manterem firmes no propósito e abandonam o próprio barco. Dá-lhe incentivo nessa hora para compensar a frustração – desculpas não faltam para justificar a todo custo a acovardada atitude.

Trabalhar em uma atividade que nos levará a um resultado com mudança significativa no cotidiano é suar a camisa, incansavelmente. De forma diferente de um plano empresarial em que as ações têm um encarregado por setor, no pessoal, somos o único responsável desde a coordenação até a execução das tarefas propiciadoras da efetivação da meta. É claro que em algum momento contaremos com o valoroso auxílio de quem está ao redor. Mas se não puderem colaborar, não desista! Afinal, o intento é seu.

Observe. Se a meta é não se alimentar com pão branco para melhorar a saúde, morar sozinho é uma vantagem para vencer o desejo de comê-lo. Basta não comprá-lo e formar o hábito de consumir massas integrais. Acompanhado, vivendo em família, a empreitada será mais difícil – conscientize-se disso. Se a turma aderir à sua ideia, ótimo. Se não topar, sinto muito. Árdua tarefa lhe espera – seus olhos vão enviar ao cérebro imagens de pães deliciosos sendo comidos no café da manhã pela parentela. Todavia, novos comandos e condutas deverão ser criados para ajudá-lo a seguir adiante, firme, com prazer e alegria. Por você. Quer motivo melhor? (Adriane Lorenzon)

 
Escrito por:Adriane Lorenzon - 13/01/2012 09:56
 
Categoria(s):  autoconhecimento, educação, interações sociais, viva melhor
Tags: deixa a vida me levar, metas, planejamento estratégico, sonho, zeca pagodinho
 
 



Desesperança
 

natuige no concreto

(Foto: autoria desconhecida)

Às vezes dá um desespero, a gente momentaneamente deixa de acreditar que é possível mudar alguma coisa. Tem dias que a dúvida é cruel e se faz presente em nossa vida. Bate à porta, entra pelas frestas, dá um jeito de se infiltrar no mais íntimo para desestabilizar, quer ver o circo pegar fogo. E a gente permite, se quiser. Contudo, o que move o mundo é a esperança, o ânimo, a coragem, a vontade, o trabalho. Repito para mim mesma: “A esperança não é a última que morre. A esperança não morre”.

Há inúmeros acontecimentos que nos fazem desacreditar num mundo melhor. Assista a um telejornal sem se proteger psicologicamente e ficará desnorteado. São pais abusando sexualmente de filhos, mães jogando as crias em lixeiras, homens matando mulheres que antes eram seus xodós. As cracolândias se alastram pelo país com uma enorme quantidade de mortos-vivos sem banho, comida, casa, dignidade. Autoridades e especialistas afirmam, para nos desanimar ainda mais, que a guerra contra as drogas está perdida.

Casos de corrupção, dólares em cuecas, malas recheadas de garoupas... Realmente, dá uma vontadezinha de não acreditar mais. Propinas e vantagens para a velha oligarquia e seus descendentes. Pesquisa feita logo em seguida ao escândalo do primeiro “mensalão” apontava indicativo preocupante: se tivessem oportunidade, os entrevistados, representantes dos brasileiros, roubariam também. Então, parece certo: desejar, esperar e, pior, trabalhar por um presente bom é pura perda de tempo – que se dirá do futuro?

Na BR 116, próximo a Osasco (SP), vivi uma situação desalentadora. Num engarrafamento ao anoitecer, um caminhoneiro me alertou que aquele era um trecho perigoso. “Há muito assalto por aqui”, perguntei. “Não, os caminhoneiros, em alta velocidade, jogam a máquina pra cima dos carros pequenos”, confessou. Depois, na prática, entendi o alerta recebido: caminhões com farol alto o tempo todo forçavam a ultrapassagem para chegar a seus destinos. Os fins justificam os meios, diria Maquiavel. Pedi proteção a Deus na empreitada “boca braba” que me enfiei e segui. Dormi e acordei num hotelzinho em Miracatu (SP) – poderia ter sido no céu.

Esse é só um exemplo de como o cotidiano nos oferece estímulos para desistirmos de arregaçar as mangas: a morte planejada de gatos com Estricnina, nossa “arte” atravessando fronteiras com refrões medíocres como “nossa, assim você me mata, ai se eu te pego”, o transporte público aos pedaços, a maledicência vertendo das línguas que parecem não se cansar, leis favorecendo seus autores, salário altíssimo para uns e merreca para outros, velhinhos sem os cuidados básicos de saúde... Como manter a esperança?

Caetano Veloso canta música de autoria dele: “Alguma coisa está fora da ordem”. Outros afirmam que está tudo errado. Entretanto, perder por W.O, jamais! “Eu tô de luto, mas não sem esperança”, ensina minha ex-aluna Fernanda de Souza Lima. No fundo, no fundo, lá onde chamamos de coração, bate uma força que alguns ainda não sabem de onde vem – está viva e se alimenta com ações abnegadas de solidariedade, esperança, construção de autonomia e novas condutas, acesso ao conhecimento.

Confio, sim, num mundo “pra frentex” quando alguém separa o lixo na lixeira mesmo não havendo coleta seletiva em sua cidade, a televisão exibe novela de cunho social, índios são respeitados por não índios, adultos não bebem ou fumam na frente de crianças, candidatos não se elegem porque o povo, finalmente, aprendeu a votar, a escolher, a exigir. Acredito na evolução humana quando vejo a história deixando o mal para trás: os tempos bárbaros, a guerra fria, as ditaduras, a escravidão... Já nos aperfeiçoamos bastante, isso meus olhos conseguem enxergar.

Todavia, algumas criaturas só conseguem visualizar o copo vazio. Suas consciências estão adormecidas. Assim, a esperança vai ficando também em estado meio amorfo e sem cor. Porém, se a mantivermos desperta, nossa alegria, essa chama que nos põe de pé, estará garantida. Se a desesperança bater à porta, voltemo-nos para dentro ou para o passado e vejamos o tanto já construído e não o pouco que se desfez. O processo é demorado porque somos lentos, preguiçosos, presunçosos. Saibamos ler com olhos de ver e faremos mais. (Adriane Lorenzon)

 
Escrito por:Adriane Lorenzon - 06/01/2012 10:50
 
Categoria(s):  autoconhecimento, educação, fatos, interações sociais, trabalho, valores morais, viva melhor
Tags: caetano veloso, cracolândias, desesperança, esperança, estricnina, fora da ordem, gatos, osasco
 
 



Baratas tontas
 

compras

(Foto: autoria desconhecida)

Que correria é essa, alguém pode me explicar? Para onde vai todo mundo com tanta pressa? Tirar o pai da forca? Eu quero entender – diferentemente da frase atribuída à Clarice Lispector “viver ultrapassa qualquer entendimento” – para quê tudo isso nesta época do ano? Ao compreendermos um processo, conseguimos nos colocar no mundo de modo mais consciente, não a passeio, e, portanto, agir de modo menos animal e impulsivo. “Basta de clamares inocência”, diz a música de Cartola.

Algumas pessoas praticam esporte sempre; outras, só em dezembro. São os adeptos da Corrida Maluca junto a Mutley, Penélope Charmosa e toda a turma – com Dick Vigarista, claro, ditando “novas” regras de, por exemplo, como roubar a rara vaga disponível no estacionamento de um shopping. Se você já esteve num lugar assim neste período, sabe do que estou tratando. É constrangedor presenciar cenas em que ética e generosidade são trocadas por coisas tão perecíveis.

As lojas estão entupidas, os caixas têm filas gigantescas, nos hipermercados carrinhos no melhor estilo bi ou tritrem são empurrados ou puxados pelo vivente “sorteado” pela própria família. Toda reclamação de falta de dinheiro vai-se por água abaixo. Cerveja, vinho e espumante, refrigerante, carnes, temperos, enlatados e afins vão se juntando, em fardos, aos itens já escolhidos no fundo do pequeno transporte de carga. Agora, o esforço é válido e, os maridos, de modo geral, não se importam com a demora nas compras.

Já passou na rua da Praia em Porto Alegre ou na 25 de Março em São Paulo? E em Ciudad del Este no vizinho Paraguai? “Parece uma praça de guerra”, disse-me alguém. Reviram cestos e prateleiras na ânsia de encontrar um regalo para dar sentido à vida. Estabelecimentos para públicos mais bem aquinhoados não escapam da manifestação do consumo exacerbado. E dá-lhe propaganda incitando o comprar – bens são adquiridos pelo capital e a virtude nasce quando o consumidor passa a usar um determinado objeto. Ô maravilha de sociedade a nossa!

Em manchetes, a mídia confirma a onda de saque autorizado mostrando gerentes a estimular vendedores a não perderem clientes. Pareço ouvir: “Precisamos bater a meta”. No final, no microuniverso, o saldo de vendas é bom, mas com um macrorresultado doloroso: altos índices de acidentes em rodovias, a maioria por excesso de álcool e velocidade. Carros retorcidos, vítimas estendidas lado a lado, choro de familiares que constatam ou recordam como o Natal e o Ano-novo não são mais datas para equivocados festejos. Sem falar dos excessos de comida, afogamentos, mal-estares, vaidades, fingimentos...

Apesar de o ciclo vicioso se repetir, como é de se esperar, e nada mudar efetivamente, todos fazem suas apostas de que o Natal e o Ano-novo serão inesquecíveis desta vez. O peru é especial porque apita quando pronto e traz um molho feito... sei lá, na Inglaterra. A roupa branca da virada trará sorte e a estreia da lingerie virá com um emprego, o novo namorado, a família menos triste e hipócrita. “O Natal me deprime porque família não é fácil”, me diz uma amiga. “É verdade”, respondo. Se a família soubesse do seu valor e potencial, amaria mais, na prática, e pronto.

Essas criaturas enlouquecidas buscam algo que não existe num centro comercial, mercado, padaria, viagem... Conclui-se o óbvio: os produtos vão estar nas prateleiras no dia primeiro de janeiro, não vão fugir. Encher o carrinho e voltar para casa com um punhado de sacolas cheias completa o vazio de suas vidas. Esbanja-se como se só o contrário fosse um mal. Enquanto isso, irmãos nossos, perto ou longe, carecem de um pouco desse muito e seguem suas jornadas sem a prodigalidade da vida contemporânea.

Possivelmente, tais pessoas afobadas estão atrás daquilo que protelaram o ano inteiro. Enganam-se que, consumindo desvairadamente, vão melhorar um projeto, a casa, educar o filho, concluir um curso – tudo o que não se fez, não se começou ou concretizou. A checagem dos itens pendentes da agenda está sem o risquinho que confirma que a ilusão não faz mais parte do gigantesco abismo de seu dono. Assim, a pressa equivale a um pedido de socorro, de atenção, de autopreservação. Quem ousará tirar as próprias máscaras? (Adriane Lorenzon)

 
Escrito por:Adriane Lorenzon - 30/12/2011 09:29
 
Categoria(s):  autoconhecimento, educação, fatos, generosidade, interações sociais, valores morais, viva melhor
Tags: consumismo, hipocrisia, ilusões, pressa
 
 



Fazendo diferença, fazendo a diferença
 

 

 
Escrito por:Adriane Lorenzon - 29/12/2011 10:29
 
Categoria(s):  Sem Categoria
Tags:
 
 



Cucas para o Natal
 

cuca de coco

(Foto: autoria desconhecida)

Peguei as fôrmas emprestadas e a receita com a querida tia Nadir. O intento? Fazer cucas para o Natal. Deliciosas, diga-se de passagem, e recheadas com coco. Minha irmã Ana reclamara que depois que nossa mãe morreu não tínhamos mais “aquele” espírito natalino que os europeus legaram à culinária gaúcha: cucas, bolachas enfeitadas, docinhos. Assim, decidi botar a mão na massa. Pronto. Não tem mais volta. Aos desavisados, resumidamente, cuca é um pão doce.

Certa de que dispunha dos ingredientes, pus-me a quebrar os ovos, amornar a água, separar as medidas de açúcar, leite, fermento, nata. Aliás, um prato nada light... Comecei cedo, passava das oito da manhã. Não tenho grande experiência em panificação, porém, dei-me conta, ao acrescentar farinha várias vezes, que a coisa seria mais demorada do que imaginava. O papel indicava amassar (e não bater como se faz em bolos, tornando o processo mais rápido). Então, colocava o pó do trigo e a massa respondia ficando durinha e firme.

Preparar uma comida para alguém ou para si mesmo é doar ou fazer florescer amor e dedicação. São horas e horas de misturas, mexidas, testagens. Tudo para homogeneizar as partes. Sem resistir, vou logo me autorizando a comer pedacinhos da massa crua. Adoro! Desde criança faço isso. Experimente! No meu caso, não houve ninguém para me censurar e dizer: “Vai fazer mal, menina! Não coma isso”! E eu, “nem bola”, como se diz nas bandas do Sul para a expressão “dar de ombros”. Meti a mão e me fartei com a iguaria.

Embora não seja uma exímia fazedora de rango, cozer é a minha praia. A preferência descamba para o universo dos salgados e agridoces. Programa legal é reunir-me a amigos ao redor da mesa e, enquanto todos conversam, relembram histórias e contam causos, eu vou lidando com os alimentos. Sem pressa, o amor se infiltra nos furinhos do macarrão, no ramo do alecrim, nos segredos que compartilho... Para cozinhar não há mistérios: é necessário sensibilidade e gostar de fazer.

Na receita original da tia, o recheio da cuca é composto de leite, açúcar e coco. Eu dei uma incrementadinha e incluí leite condensado. Aprecio essa combinação. Apesar de ser tudo a mesma coisa. Enquanto a massa descansava e crescia a olhos vistos, fui prepará-lo. Nunca tire os olhos da panela. Por quê? Arrá! Ou gruda no fundo ou o leite entorna e lambuza a panela, o fogão... Faça-o em fogo baixo após levantar fervura e tenha calma. Muita, de preferência. Assim você domina a química ocorrida ali e não o contrário. Simples assim.

Depois de algum tempo mexendo, desliguei o fogo e fui almoçar a comidinha preparada pela secretária Marli. Foi ela quem me alertou que o ponto era aquele mesmo. Se continuasse fervendo, chegaria ao de doce de leite e no lugar de recheio de cuca, eu cortaria barrinhas. Marli é descendente de alemães, povo habilidoso em quitutes como o famoso apfelstrudel – folhado de maçã e canela.

Nesse ínterim, a massa já crescera o suficiente. Era a vez de enformar. Primeiro, dar aquela amassadinha, abri-la e aplicar o recheio. Como ainda estava quente, precisava deste, frio ou, pelo menos, morno. Mexi um tempão – enquanto o fazia, pensava em como tudo na vida exige pa-ci-ên-cia. Quando se tem consciência disso, fica mais fácil e prazeroso viver. A felicidade torna-se alcançável, pertinho de nossas mãos. E eu lá mexendo, mexendo – ora no sentido horário, ora ao revés – e deixando de obrigar a mente a pensar. Acho que a esvaziei, como sugere o budismo.

No total, quatro cucas grandes e uma pequena. Último passo: aplicar “farofa” (feita de açúcar, nata e farinha) na cobertura e enforná-las. Lá se foram as cucas tornarem-se, efetivamente, cucas – o que só ocorreria quarenta minutos depois. No jantar comi... Adivinha? Cuca, lógico. Ué, mas não era para o Natal? Ahã. Desculpa para comer antes de todo mundo? Ah, um cozinheiro carece de autocrítica para avaliar os comentários dos outros! Resultado: aprovadas, até pela tia Nadir. Não é mole não! E olha que as dela são maravilhosas. Agora é aguardar a reação dos olhinhos de Ana. Acho que ela vai gostar. (Adriane Lorenzon)

 
Escrito por:Adriane Lorenzon - 23/12/2011 10:21
 
Categoria(s):  culinária, gastronomia, receitas
Tags: cuca, receita de cuca
 
 



Respeitem meus cabelos brancos
 

menininho

(Foto: autoria desconhecida)

O cantor e compositor paraibano Chico César escreveu, alguns anos atrás, canção com o mesmo título desta crônica, mas colocou vírgula depois de “cabelos” – queria chamar a atenção de um público não negro. Ele abordava uma verdade: a discriminação com o crespo da afrodescendência. Aqui, de propósito, renunciei à vírgula porque a intenção é diversa: tratar de preconceito, porém, com o prateado de minhas madeixas. Enfim, resolvi assumir o grisalho. Chega de tinturas, esperas em salão, testa manchada, lambuzos em casa...

De início, o corante servia para mudar a cor, dar um tchan no estilo pessoal. Como uso cortes curtos ou curtíssimos há duas décadas, ninguém os percebia. De uns anos para cá, se me demorava em retocá-los, notava que a situação estava, digamos assim, junta e misturada. Acho graça e me divirto muito com o olhar surpreso de quem ainda não sabe dos meus fios descoloridos pela vida. Alguns brincam: “Ah, é como se você tivesse feito luzes”.

No entanto, atualmente, a coisa está séria. Tem até mechinha a William Bonner. O motivo da existência tão precoce desse branquicelismo todo, desde os 18 anos, pode ser predisposição genética. Como de uns anos para cá passei por situações estressantes, cogita-se, portanto, outro fator. Mas... adianta saber? Nada vai alterar. A medicina confirma a falta de soluções na área – isso está claro e é tranquilo para mim. Já para o meu semelhante, não. Aí a coisa complica – somos seres sociais, está lembrado?

Ao falar na possibilidade de deixar à mostra a melena assanhada, tenho ouvido de cabeleireiros e amigas que sou muito jovem para tal intento. Modéstia à parte, apresento mais ares de moleca do que minhas quatro décadas novembrinas. Claro, fui aceitando a imposição descarada da sociedade de que aparentaria um envelhecimento antecipado e pintava uma vez mais. Observe. Cabeleira curta precisa ser cortada a cada 15 ou 20 dias. Senão, dá uma impressão de desleixo – e se o corte ocorre nessa periodicidade, a tintura vai-se embora.

Poucas pessoas ao meu redor vivem situação parecida – fico, novamente, deslocada no mundo. Aquele lance do pertencimento... Então, matutei: “Vou para a Internet ver o que a mulherada anda falando. Impossível que só euzinha esteja pensando em assumir os brancos”. Delícia nos sentirmos acompanhados! Não deu outra. Lá estavam depoimentos de mulheres com a mesma dúvida cruel. Senti-me acolhida e encorajada. Viva a web!

Caro leitor, você acha que homossexuais e negros são os únicos discriminados? Qual nada! Embora em grau e metodologia distintos, mulheres brancas, de classe socioeconômica média ou elevada, também sofrem com o mal da ignorância de outrem. Por que seria diferente comigo? Uma “obrigação” nos impele a escondermos a velhice. Ora, quem disse que envelhecer é feio, errado, fora de moda e demais expressões que nos ensinaram para reprimir vontades, ideias e sonhos frente à vida? É a ditadura da aparência jovem em pleno vigor! Quem consegue se esconder por tanto tempo? Dercy Gonçalves? Glória Maria?

Nunca tive problemas com idade. Contudo, agora, sou nova pessoa e não quero pintar os cabelos. Ponto. A não ser que profissionalmente se faça necessário. Curtir essa fase, sim. Imensamente! É o meu envelhecer. Sempre disse: “Ao chegar aos 60, serei linda”. Olha só, faltam-me apenas duas dezenas de anos. A repórter Denise Brito, do jornal A Folha de São Paulo, entrevistou mulheres como a professora de inglês, Mila Rey, 53, que contesta a tirania da beleza: “Abdicar de uma aparência que se convencionou ser rejuvenescedora pode ser considerado até agressivo aos olhos de quem acha difícil lidar com os sinais do próprio envelhecimento”.

Ô, pacato cidadão! Não estaria na hora de conversarmos sobre velhice? Quanto aos meus branquinhos, alguém sentenciou: “Não é que você fique feia, mas é por você ficar velha”. Ãh?! Da amiga, coordenadora pedagógica da escola Olodum, a baiana Mara Felipe, 43, ouvi: “Feliz de quem está vivo para envelhecer. Eu me sinto linda, maravilhosa; eu estou, a cada dia, me sentindo melhor, mais feliz, mais realizada. O ano que vem será melhor ainda porque eu estarei mais velha, mais experiente e com mais vontade de viver... e de envelhecer”. (Adriane Lorenzon)

 
Escrito por:Adriane Lorenzon - 16/12/2011 15:20
 
Categoria(s):  autoconhecimento, fatos, interações sociais, viva melhor
Tags:
 
 



Marcha pelas drogas
 

drogas

(Arte: autoria desconhecida)

Amanhecemos o ano de 2011 com uma enxurrada de convites à drogadição. Foram tantos apelos! Um pouco de desconhecimento e defenderíamos também. Percebeu? Saca só. Em janeiro, soubemos da produção do documentário Quebrando o tabu, de Fernando Grostein, mostrando que a maconha precisa ser descriminalizada. Autoridades, como os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Bill Clinton (EUA), defendendo a legalização das drogas para poder barrar o consumo. Segundo o filme, a guerra contra os entorpecentes está perdida.

Programas jornalísticos nos apresentaram o óxi (feito de cal, substância de bateria, gasolina ou querosene) – mais forte e mais barato que o crack. Se este custa módica meia dezena de reais, o óxi sai pela metade do preço. A cal detona o sistema respiratório, enquanto o combustível afeta a região digestiva. Segundo a Polícia Federal, o óxi não é uma nova droga e, sim, uma variação da cocaína, surgida em 2005. Porém, a bomba da vez é o crocodilo. Criada na Rússia, a droga é composta de analgésicos, ácido e fósforo e apodrece a carne dos usuários. Segundo a revista Time, a expectativa de vida dos dependentes é de três anos.

Ainda ficamos sabendo da existência do cristal, tóxico poderoso que estoura os dentes dos usuários devido aos elementos corrosivos de sua fórmula. É chamado de cristal da morte; certamente, não por acaso. Conhecido por ice (gelo, em inglês), é 60 vezes mais forte que a cocaína. Pode ser fumado, cheirado, injetado ou tomado. Trata-se de uma meta-anfetamina que estimula o Sistema Nervoso Central causando euforia e potencializando o desejo sexual. Por isso é usado em festas, tipo raves, e durante o sexo. Leva o usuário a ficar dias sem comer ou dormir.

Por todo o país eclodiram passeatas de jovens defendendo a descriminalização da maconha. Como lhes faltou habilidade para se expressar e, desse modo, conquistar a opinião pública massivamente e com o devido discernimento em casos como esse, foram repreendidos pela Polícia Militar em diversos lugares. Até que conquistaram o direito na Justiça pela liberdade de expressão e puderam sair com cartazes, faixas, gritos de ordem ou desordem, como queiram, para dizer o que pensam em vários cantos do Brasil.

Sem o devido destaque na grande mídia, a indústria do tabaco manteve aditivos, aromatizantes, temperos e ervas que, cada um na sua função, potencializam os efeitos da nicotina e disfarçam o gosto horrível na boca. Açúcares são adicionados ao cigarro, aumentando doenças graves nos dependentes, como o câncer. Atualmente, a lenta e resistente Anvisa luta para que a propaganda explícita de cigarro não volte à cena. O governo não se posicionou firmemente e a indústria fumígena passou a determinar a velocidade da discussão. 

Durante dias acompanhamos pela televisão os desdobramentos de uma polêmica desnorteada (como todas são) e protagonizada por estudantes de uma das maiores e melhores universidades brasileiras: a USP. Alunos fumavam a erva marijuana no pátio da instituição quando a Polícia Militar interveio. Estudantes, “saudosistas” da luta contra a ditadura dos anos 1960/70, decidiram usar o ocorrido para barganhar outras questões com a reitoria. Foram falar de violência, por exemplo, utilizando-se de... Adivinha!? Violência...

Fechando o calendário, recebemos a notícia da morte do jogador Sócrates, autodeclarado dependente de álcool. Em setembro, numa de suas internações hospitalares, a mulher dele, Kátia Bagnarelli, disse ao jornal A Folha de São Paulo que iria incentivar o marido, quando recuperado, a iniciar uma campanha contra o alcoolismo para conscientizar as pessoas. “O arrependimento veio agora, me vendo sofrer e pelo sofrimento físico que ele está sentindo”, comentou. Não houve tempo para os projetos e o esclarecimento da sociedade.

Para o psiquiatra André Toríbio, “vivemos num mundo químico em paralelo ao crescimento econômico que nos acompanha como artifício de qualidade de vida”. Ou seja, desde cedo sabemos como alterar artificialmente a consciência para melhor digerir os reveses da vida. Mas quando vamos primar pelo discernimento, educação, reforma interior e, assim, espalhar em volta a prática de um mundo melhor? Se a Organização Mundial da Saúde constatou em estudo que a dependência química ocorre num processo de aprendizagem, por que não aprendemos também a edificar nossa construção muito mais do que nossa destruição? (Adriane Lorenzon)

 
Escrito por:Adriane Lorenzon - 10/12/2011 07:37
 
Categoria(s):  autoconhecimento, educação, saúde, valores morais, viva melhor
Tags: drogadição, drogas, quebrando o tabu, tabaco, álcool
 
 



Cecília e os bichos presos
 

cachorro

(Foto: autoria desconhecida)

Um dos poemas mais lindos que conheço é Romance XXIV ou da Bandeira da Inconfidência de Cecília Meireles. Versos e mais versos preenchem o papel com o tema central da luta de um povo: liberdade. Mas não vou tratar aqui da história e das relações do Brasil, Minas ou Portugal. Quero apenas destacar um trecho do texto da musa lírica. “Liberdade, essa palavra que o sonho humano alimenta: que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda”. Contudo, realmente entendemos de liberdade?

Passeando pelas ruas de Cachoeirinha (RS), sou invadida pela lembrança do Romance... que o recitei num espetáculo em Brasília, anos atrás. E a poesia é assim: ela gruda na gente e a gente nela – desde que a assimilemos em sua essência por meio da sensibilidade. Então, a narrativa de Cecília, naquele passeio, me envolveu enquanto via uma quantidade enorme de cães presos. Aliás, proporcionalmente falando, uma das cidades que visitei com mais cachorros perdidos nas ruas e presos em casa. Pode crer!

Meus passos eram seguidos por Cecília que me cutucava o tempo todo em súplica por liberdade. Pensei: que amar é esse que leva o homem a prender seu “bem-querer” entre latidos, abanar de rabo e uivos roucos de saudade? A mente se esforça para tal compreensão, mas o discernimento lhe escapa. O coração se derrama em choro por tamanha crueldade. Improvável um número elevado de casos com justificativas iguais de seus donos: “Prendemos um pouco, só por agora, até lavar a calçada”... e outras desculpas esfarrapadas.

Situações presenciadas ao longo da vida vêm à memória. Um cachorro que latia noite e dia em Tenente Portela, também no estado gaúcho. Era triste ouvir, de longe, aquela penúria. Nunca soube o desfecho. Conheço pessoas que mantêm seus “melhores amigos” em correntes de um metro de comprimento. Há peludos que caminham pra lá e pra cá durante horas, sem mais nada a fazer, tamanha é a redução do espaço de interação com a natureza. Sem falar, no inverno, presos à corrente e ao frio, sem poder buscar abrigo para agasalhar-se.

Em Florianópolis, uma ocorrência inusitada. Nunca a vida me mostrou tão bem o significado da palavra surreal. Quase tive um troço. Na ilha de Santa Catarina, manés carregam curiós em pequenas gaiolas pelas ruas. A ideia é passear ao sol com o avinhado. Em outra situação, por todo canto do mundo, há quem mantenha o peixe beta em minúsculo aquário para decorar a sala. Pessoas se presenteiam com o peixinho de longa cauda em sinal de amor. Ãh? Alguém justificará que o motivo para mantê-lo na estante – solitário e belo – é por ser briguento demais?

A bicharada dos zoológicos vive, amiúde, em recinto impróprio para suas necessidades. Pessoas prendem animais silvestres em casa para o bel-prazer de tê-los ali, ao alcance da mão. Um velho leão maltratado foi deixado em pequena jaula por um circo na beira de uma estrada no Brasil. Um bom samaritano passou e o levou para cuidá-lo e amá-lo. Tartaruguinhas são vendidas em pet shops para famílias mimarem crianças. Quando os quelônios crescem são deixados por aí. Por que os pais não fazem isso com seus filhinhos?

Traficantes enrolam e escondem nas roupas papagaios, pererecas, borboletas, vespas, besouros para “exportar” a colecionadores, mafiosos ou estudiosos. Também serpentes, jaguatiricas, macacos e tipos exóticos de nossa fauna vão-se embora. Qual a diferença da ação deles e a de pessoas que conhecemos que prendem animais e os maltratam por uma vida inteira? Nenhuma. Se o dinheiro “justificaria” o ato dos primeiros, o que argumentaria o segundo grupo?

Voltando à liberdade de Cecília. Que hábito funesto tem o ser humano de prender tudo o que vê pela frente? Que história é essa a de matar aos poucos os bichos com a tortura que abominamos para nós, ditos seres racionais? E se as pessoas sentissem na pele o que fazem aos bichos? Sempre que vejo um cachorro preso, caminhando pra lá e pra cá, me vem a imagem de seu dono, mesmo desconhecido, amarrado na curta corda do animal. Por que a restrição da liberdade é uma das penas mais dolorosas aplicadas nas sentenças judiciais humanas? (Adriane Lorenzon)

 
Escrito por:Adriane Lorenzon - 02/12/2011 11:24
 
Categoria(s):  animais, cachorros, educação, fatos, generosidade, interações sociais, natureza, valores morais, viva melhor
Tags: amor, caridade, cecília meireles, romance XXIV ou da bandeira da inconfidência
 
 



TDM – Tensão Durante o Mês
 

mulher em tpm

(Arte: TPMulheres.net)

Dismenorreia primária. Ô palavreado chique! Com 13 anos a meninada já sabe o significado. Comigo também foi assim. As cólicas menstruais surgiram fazendo o maior estrago e me mantendo às voltas com a catástrofe mensal. Antes de nascer, alguém deve ter me perguntado se eu queria viver com ou sem emoção. Eu devo ter dito: “Com muita emoção”. Perdi a conta de receitas caseiras, dicas, chás, orientações, livros, pílula sublingual, para tentar melhorar a situação “naqueles dias”. No final, cá entre nós, dá uma amenizadinha. Aliviar, de fato, o suplício, só depois de cinco dias – entretanto, no próximo ciclo...

Um rasgo sutil e crescente lá no fundo do abdome, a lombar reclamando como se estivesse ferida, panturrilhas doendo muito. Algumas mulheres chegam a desmaiar. Diz-se que a culpa é das prostaglandinas que promovem contrações uterinas fortíssimas. Tudo para anunciar o pesadelo. Em seguida, uma irritação inexplicável nos transforma numa espécie de monstrinho. Sem falar na dor de cabeça e no desconforto: sangue, absorventes, investimentos em remedinhos que duram até o organismo habituar-se ao princípio ativo. No total, 20 dias de sufoco e folga de 10 em cada um dos módicos 430 meses da vida reprodutiva feminina. Daí TDM e, não, TPM como definem os estudiosos.

A pior parte é ouvir do ginecologista: “Ah, isso é normal”. Argh! Ato contínuo, braços imaginários se enroscam no pescoço dele e apertam, apertam... Ainda bem que fico na vontade. Perguntei se é normal, cara pálida? Dê-me, por favor, um remédio para aplacar a aguda sensibilidade e me colocar na lista de pessoas civilizadas o mais rápido possível! Que eu não vomite de dor periodicamente ou pare na emergência para um Buscopan na veia! Não quero enlouquecer de exasperação por qualquer coisa, nem me tornar um animal irracional!

Nesse contexto, pessoas insistem em subestimar e minimizar os sintomas ligados à menstruação. Um dia conversava com uma nova amiga que afirmava com grande convicção: “TPM sequer existe, é bobagem, frescura.” Respirei fundo, mas imediatamente entendi. Ela nunca sentira algo parecido, portanto, não sabia do que se tratava. Alguns homens acham que a dor é psicológica, pura invenção nossa. Ambos confirmam minha tese: colocar-se no lugar do outro carece, além de amor, determinação e conhecimento para entender o processo.

Uma noite cheguei tarde a casa, peguei um pouco de chuva e o Internacional entrara em campo. A contração era insuportável e não havia remédio disponível. Estava sem força de procurar na lista telefônica uma farmácia que atendesse em domicílio. Com cólica, o ânimo se esvai junto no vaso. Peguei o ferro de passar roupas e o deslizei diversas vezes em uma toalha macia. Deitada, coloquei-a junto ao baixo ventre. A gata Penélope, vinda de fábrica equalizada em sintonia fina, ajeitou-se em meu travesseiro e começou a massagear minha cabeça. Adormeci e a dor sumiu. Os bichanos são definitivamente demais!

A salvação parecia estar a caminho. Soube de uma lei milagrosa. Poderíamos faltar ao trabalho, sem represálias e descontos, no dias de cólica. Comemorei, agradeci. Qual o quê! Era alarme falso, talvez um projeto de lei... Já as assassinas, muitas vezes, têm penas atenuadas se comprovarem o álibi da menstruação no dia fatídico. Afinal, são cerca de 160 sintomas e o descontrole acontece do nada. Tenho certeza, caro leitor: você conhece mulheres que estão um amor pela manhã e à noite o bico dobra a esquina. Para o seu bem, não ouse perguntar o que houve...

Amiga mulher, diz Mari Sandra. Nem tudo está perdido. Autoridade no assunto, o médico baiano Elsimar Coutinho, defende a tese de que não precisamos menstruar. Segundo ele, os avanços da medicina reduziram drasticamente a tortura mensal de pessoas como euzinha. São vários métodos, porém, o comum é tomar pílulas anticoncepcionais sem pausas. Durante alguns meses haverá escapes. E, se correr bem: “Libertas quae sera tamen”! Há um ano em tratamento, pelo visto, a TPM está deixando de ser a principal justificativa para meus impulsos mais baixos e ataques nervosos. Ufa! Por mim, sem problemas. Eu troco “de mano”, numa boa. (Adriane Lorenzon)

 
Escrito por:Adriane Lorenzon - 25/11/2011 08:20
 
Categoria(s):  autoconhecimento, interações sociais, saúde, viva melhor
Tags: cólica menstrual, mulheres, prostaglandinas
 
 



Sei que nada sei
 

menina pensando

(Foto: autoria desconhecida)

Detesto bater papo sobre filmes a que não assisti. Por mim, estaria tudo certo, pois, diga-se de passagem, adoro escutar histórias, apesar de saber o final antecipadamente. A confusão é: nem todo mundo lida bem com o não saber do outro, o não conhecer, o não ter assistido “àquele” clássico. Daí, ouço: “Você não viu tal filme”? E eu, calmamente: “Não”. Lá no fundo pensava: “Qual o problema? Vou morrer sem ter lido todos os livros, assistido a shows como da Legião Urbana ou a películas maravilhosas”!

Sou tranquila com o meu tanto de não saber. “Calmo, mas não conformado”, como diria Chico Buarque. Tenho muito a desbravar nesse mundão que uma vida apenas vai ser pouca para vasta experiência. Ledo engano achar que se consegue fazer todas as descobertas numa só. É claro, posso ampliar as possibilidades e buscar o conhecimento a toda hora, a cada minuto. Adoro estudar. Por exemplo, há épocas em que aprecio Guimarães Rosa; em outras, prefiro filosofia. Nem por isso me considero a poderosa da literatura, das letras.

Pessoas também não reconhecem os saberes das outras. Professores são campeões em desvalorizar o que crianças e adolescentes, em especial, têm de mais rico: as próprias visões de mundo. Lembro-me de um no curso de jornalismo que nos dias de prova, esfregando as mãos, falava: “Vou ferrar vocês”! Coitado! Devia ser uma pessoa triste e iludida. Na outra ponta da história, lembremo-nos de Paulo Freire – educador ousado, declarava respeito ao saber do educando.  

Minha mãe Maria sabia o quanto não sabia e, assim, era sábia. Aos 58 anos aprendeu a andar de bicicleta. E ficava lá motivando as amigas mais jovens a andar de bike. Mais tarde, começou a dirigir e tirou carteira. Fomos juntas comprar o primeiro carro dela. E fechando com chave de ouro, arrasou na animação. Como frequentou a escola até a terceira série primária, ficou sem estudar formalmente a vida toda. Pois não é que concluiu o primeiro grau depois dos 60? Se tinha dificuldades? Claro que sim, como eu e você.

Criaturas presunçosas, inconscientes dessa condição, tratam de modo indelicado quem não vivenciou situações como elas. Então, quando descobrem um serzinho quase indefeso porque não sabe algo, se lançam como jaguares esfomeados. Geralmente, agem desse modo figuras que, por exemplo, conhecem diversos países, têm títulos acadêmicos, são poliglotas ou entendem de vinhos, os sommeliers. Note que há uma diferença enorme quando pessoas simples sabem muito. Estas, contam histórias interessantes e tudo flui tão natural que a arrogância passa longe.

Não saber não é a questão-chave. Agora, não querer saber... Há uma frase nos alertando há tempos: “O pior ignorante é o que não quer saber”. É ou não é? É. Conheço gente teimosa que insiste numa opinião para ver o circo pegar fogo e ter o nome na calçada da fama – dos chatos, claro. E os adolescentes? Pensam saber mais que os pais em experiência de vida e os tratam com violência, desconsideração. Sentem vergonha deles. Podem dominar a tecnologia, mas na longa estrada...

É atribuída aos Sete Sábios gregos, que teriam vivido entre 650 e 550 a.C, a célebre frase “Conhece-te a ti mesmo”. Ao ser apontado como o maior sábio da Grécia, justamente por esses caras, Sócrates reconhece o tamanho de sua ignorância. Ciente disso, afirma, entretanto, ser estimulado pelo não saber para desvendar o desconhecido. E dizia: “Sei que nada sei”. Logo, concluímos: não saber é terreno fértil para mentes ávidas em busca de conhecimento, renovação de ideias e ideais. Afinal, não somos prontos e conclusos.

Fiz um combinado comigo. Não sei e não entendo um monte de coisa, mas estou aberta ao aprendizado, vou conhecendo uma porção de novidades. Para o francês Marcel Proust, na obra Em busca do tempo perdido – A prisioneira, “a única viagem verdadeira (...) não é partir em busca de novas paisagens, mas ter outros olhos, ver o universo com olhos de outra pessoa, de cem pessoas, ver os cem universos que cada uma delas vê, que cada uma delas é”. Isso nos engrandece, faz superar deficiências, ultrapassar limites que nos impomos diariamente. (Adriane Lorenzon)

 
Escrito por:Adriane Lorenzon - 18/11/2011 08:20
 
Categoria(s):  arte, cultura,, autoconhecimento, educação, filosofia, generosidade, interações sociais, valores morais, viva melhor
Tags: Chico Buarque, Guimarães Rosa, Maria Lorenzon, Paulo Freire, Sócrates, ignorância, sei que nada sei
 
 



Delicadezas masculinas
 

homem com flores

(Foto: autoria desconhecida)

 

Quando me acusam de ser exigente com os possíveis pretendentes, vou logo perguntando o que se entende por exigência. Sem fôlego, mudo ou enrolando, o interlocutor divaga em pensamentos. Geralmente, o argumento descamba para hipóteses como estas: eu assusto os homens ou cobro perfeição deles. E fica nisso. Então, dou-lhe uma aulinha sobre qual é (e não quais são) meu requisito primordial para um namorado: ser gentil. E isso, aparentemente, é muito simples e fácil. Nem tanto? Vejamos.

Um homem de fino trato aproveita cada dia para praticar a amorosidade com o outro, seja quem for. No ônibus, oferece o colo para carregar o pacote pesado de alguém em pé. No supermercado, deixa passar à sua frente o rapaz ou a senhora, imediatamente atrás de si, porque tem apenas uma caixinha de leite e o cavalheiro “só” um carrinho cheio. Se, sem querer, ocupou a vaga de alguém que já indicava com a seta para usá-la num estacionamento, admite que a vez é do veículo vizinho e a cede humildemente. Viu só?

Esse cara se reconhece de longe, pois age assim com qualquer pessoa em todos os lugares e situações. Fique certa: se é carinhoso com familiares, conhecidos e estranhos, também a tratará desse modo. Gentil, esse homem entende de respeito na prática. Sem chance de estupidez, violência, grosseria, indelicadeza. E se um dia portar-se meio desajeitado, você terá a certeza de que foi um deslize do qual temos o direito de cair. O caráter dele estará a salvo. Ufa!

Mulheres têm a “burra” mania de se apaixonar por homens cafajestes. Percebeu? O cara dá toda a pinta do quão inábil é no quesito elegância: no primeiro encontro a trata mal, atende ao telefone várias vezes no restaurante, fala da “ex” como a criatura mais desprezível do mundo? Arrá! Sinal amarelo! Pode saber que ele fará o mesmo com você. Vamos, reflita. Por que justamente com você seria diferente? Raríssimos homens mudam tanto de uma namorada para outra, ainda mais se as trocam como se o fizessem com roupas.

Um gentleman é um homem de atitude. Não fica na verborragia. Se vê alguém precisando de ajuda, arregaça as mangas e auxilia o vivente, deixa de olhar ao redor com ar de espectador, está atento às necessidades alheias. Esse tipo de homem tem a sensibilidade aflorada e, muitas vezes, pode ser qualificado de “afeminado” e aqueles adjetivos propalados por quem pensa que a vida é apontar o dedo para o outro. Esquece-se dos demais direcionados a si mesmo.

O baiano Gilberto Gil escreveu uma das músicas mais profundas do nosso cancioneiro. Superhomem – a canção nos arrepia quando pensamos que ser macho é muito mais do que tábua de tanque no abdome. Diz o poeta: “Um dia vivi a ilusão de que ser homem bastaria, que o mundo masculino tudo me daria, do que eu quisesse ter”. No site pessoal, Gil afirma: “Muita gente confundia essa música como apologia ao homossexualismo [sic] e ela é o contrário”. Ao compô-la, interessava “revelar esse embricamento entre homem e mulher, o feminino como complementação do masculino e vice-versa, masculino e feminino como duas qualidades essenciais ao ser humano”, completa.

Cortesia é muito mais que puxar a cadeira ou abrir a porta do carro. Não está somente no envio de flores e presentes, mas na forma de tratar o mundo de um jeito melhor de como se apresenta. O “mundo vasto mundo” de Drummond fica mais bonito com homens amáveis, afinal, aprendemos que os homens são brutamontes. Não precisa ser assim. Podemos ampliar o leque e criar sentimentos e atitudes elevados. Saiba: para as mulheres, a delicadeza masculina é atributo nobilíssimo.

Para fazer parte da vida da gente, precisamos, sim, elencar prioridades – caso contrário, permitiremos “qualquer um” em nossa volta. E então, sou exigente ou simplesmente uso o discernimento para selecionar o que quero? Os outros deveriam decidir por mim? A experiência tem me mostrado isto: assusto monstrinhos e atraio homens interessantes. E como se trata da minha vida, faço escolhas baseadas na gentileza. Daí fica fácil tolerar as inúmeras limitações que todos trazemos em nós. (Adriane Lorenzon)

 
Escrito por:Adriane Lorenzon - 11/11/2011 05:56
 
Categoria(s):  autoconhecimento, educação, generosidade, interações sociais, saúde, valores morais, viva melhor
Tags: cavalheirismo, delicadeza, gentileza, homem cavalheiro, homem gentil
 
 



Pequenos prazeres
 

arte

(Arte: autoria desconhecida)

Pequeninos acontecimentos no dia a dia quando inseridos no grande contexto que é a vida, tornam-se coisas grandiosas. Já reparou? Isso vai do acordar ao adormecer novamente. São detalhes escondidos nas frestas da agenda enlouquecida da atualidade. Tenho curtido tais fenômenos como feliz espectadora e atriz. Afinal, no meu caso, a saúde é perfeita, a mente saudável, o espírito aprendiz. Só preciso conciliar tudo no cotidiano, diante dos enfrentamentos, obstáculos, desafios.

Cedinho quando levanto, adoro tomar água natural para despertar o intestino, dar uma mexidinha de leve no estômago, dizer olá para as células. Comecei a fazer isso há uns 15 anos e algo mudou em mim. Na mesma época, passei a comer mamão, cereais e iogurte natural como desjejum. Uma maravilha gerando outra maravilha. É que o intestino trabalha como um operário dedicado e pontual. E está comprovado: tomar água em jejum faz um bem danado, ajuda até a desintoxicar o corpo.

Diariamente, depois do líquido bendito, o intestino dá sinal de querer começar a atividade que lhe é peculiar. Sem desespero, ele não vai trabalhar fora de hora e evita-se o aperto de precisar, às pressas, de um vaso. Sim, porque em desordem, o bichinho acaba sendo autônomo e comparece quando quiser. Entretanto, é preciso disciplina e vontade – educar o paladar, achar o novo cardápio saboroso e conhecer os alimentos que se harmonizam com o organismo. Por exemplo, na primeira refeição do dia, você prefere frutas doces ou ácidas? Ainda não sabe? Nem come frutas?

Há minúcias que a gente não para para observar com atenção. Na hora da higiene bucal, aprecio molhar a escova para o creme deslizar facilmente pelos dentes. Se você coloca direto na boca a formação de espuma fica prejudicada, dando um desânimo na escovação – haja saliva para auxiliar no processo. Ah, e nas manhãs do inverno gaúcho, gosto de lavar o rosto com a água gelada da torneira. Parece loucura, mas experimente antes de criticar. A pele fica lisinha, lisinha. É uma sensação muito agradável.

Assim, o dia começa com novo esplendor e a promessa de que vai ser melhor ainda. Você vai ao trabalho e encontra o trânsito engarrafado. Antes de pensar em xingamentos, surge na fileira de carros ao lado um “deus grego” – está certo, se preferir, uma “deusa grega”. Imediatamente tudo fica iluminado. O sorriso vindo do outro carro serve de inspiração para o dia ser mais, mais. Que delícia é o trânsito – em outros momentos você teria querido explodir. Agora, só a eternidade interessa. Então, a fila anda, o sinal abre e você engata a primeira – é o jeito.

Ser ajudado pelos amigos é algo também sem preço estimado. Nunca vou me esquecer da sopa da Bete. Certa feita, comentei que estava gripada. Sensível a essas situações, Betinha foi logo se oferecendo para levar um caldinho quente para mim. Quando falei que não queria atrapalhar, ouvi: “Que é isso Drizinha, eu chego aí num instante, é só o tempo de os legumes cozinharem, pois o frango já está desfiado”. No dia seguinte, estava melhor. Caldo temperado com carinho cura rapidamente qualquer indisposição.

Falando em comida... E quando você é convidado para degustar uma iguaria que você adora e o anfitrião sabe realmente prepará-la? Afinal, você é especialista naqueles ingredientes e tem o paladar apurado... Ou quando você se permite provar um novo prato e descobre surpreso que ele é muito mais gostoso do que imaginou? É demais! Sensações indescritíveis que só aparecem na boca de quem ousa conhecer o desconhecido. Você é assim ou torce o nariz mesmo sem se dar ao luxo de desbravar sabores estrangeiros?

Inúmeros deleites poderiam ser reverenciados aqui. A oferta de empréstimo de um amigo na hora do aperto, alugar um imóvel direto com o proprietário e sem a burocracia constrangedora das imobiliárias, o frescor e o aroma na porta da loja de perfumes e colônias, o cheiro do amaciante nas roupas de cama recém-trocadas, o carinho do animalzinho de estimação quando chegamos do trabalho, o professor paciente que repete pela décima vez o conteúdo difícil, os pais que são o exemplo de amor... Nosso ânimo se alegra com minúsculas e poderosas manifestações de que a vida vale a pena. (Adriane Lorenzon)

 
Escrito por:Adriane Lorenzon - 04/11/2011 07:54
 
Categoria(s):  autoconhecimento, saúde, viva melhor
Tags:
 
 



Aparências, nada mais
 

máscara

(Foto/arte: autoria desconhecida)

 

Outro dia lembrei-me de uma música cantada por Marcio Greyck, de Cury e Ed Wilson, intitulada Aparências. Talvez, hoje, seria considerada brega, porém, foi sucesso estourado nas paradas radiofônicas dos anos 1980. A letra contundente é fácil visualizar na vida das pessoas: “Aparências, nada mais, sustentaram nossas vidas, e apesar de mal vividas, tem ainda uma esperança de poder viver. Quem sabe rebuscando essas mentiras e vendo onde a verdade se escondeu se encontre ainda alguma chance de juntar você, o amor e eu” [sic].

O poeta está, claramente, retratando a história de um casal, todavia, vamos ampliar o poema no contexto das interações humanas. Quanta hipocrisia! Quanta dor escondida! No mínimo, sofrível! A criatura se contorce toda para ajeitar as máscaras sociais, dando um brilho no verniz... Sempre me incomodei com o gosto pela hipocrisia e a necessidade de se manter a aparência. Muitos preferem a mentira à verdade e deixam isso muito claro, nem tentam esconder. Confesso: surpreendo-me toda santa vez que encontro alguém assim.

Certa feita, percebi ao meu redor um bocado de gente sem ânimo para ouvir e ver a realidade, isto é, a mentira ou a meia verdade eram mais interessantes. Por vezes, deparei-me tendo de amenizar palavras para não assustar o interlocutor. E, olha, estou falando de pessoas educadas, instruídas, leitoras assíduas, engajadas. Fazia isso para não ser a responsável por mais um castelo destruído, uma realidade ilusória desfeita – delas, no caso. Oscar Wilde já dizia, “pouca sinceridade é perigoso, muita sinceridade é fatal”.

Calma! Não estou advogando em defesa da mentira. Acredito muito mais no despertar do autoconhecimento. Entretanto, às vezes, amigos, parentes, colegas de trabalho se assustam sobremaneira com a minha transparência e facilidade de falar de coisas doídas; se perdem, não sabem como lidar, entram em parafuso. Então, amorosamente, ao perceber tal incômodo, procedo em seu socorro. Já ouvi até que eu seria poupada de alguns assuntos para não me emocionar. É que sou inteira, não pela metade, permito-me mergulhos mais profundos.  

Um verso da canção remete ao nascedouro de coisas malresolvidas em relações e que geram falsidades e ilusões. “Quantas dúvidas deixadas no momento pra se resolver depois.” Veja. Esperar a poeira baixar um pouco para depois conversar e solucionar conflitos, tudo bem, é saudável. Agora, jogar os podres e mal-entendidos para debaixo do tapete, deixando que o futuro lhe apresente dores que o vivente se iludiu achando que havia curado, é masoquismo e desconhecimento de si mesmo. Despertar para o aqui agora é fundamental. Aparar arestas é necessário e inadiável.

Caro leitor, com o devido respeito, pare de se enganar! Quantos casais, colegas, familiares, sócios e ex-amigos ficam anos pensando de um jeito sobre um ocorrido, só porque preferiram o silêncio ou a hipocrisia da máscara? Lá um belo dia, acontece algo providencial que lhes mostra o quanto estavam equivocados e que se houvessem perguntado em vez de “achar que” teriam resolvido coisas pendentes há décadas? Daí ouvirmos ou falarmos pérolas: “Nossa, fulano, achava que você estivesse chateado comigo por outra coisa”!

Observe. Manter a aparência é infinitamente diferente de ser discreto com a vida pessoal. Casais buscam resolver suas histórias no âmbito familiar, empresas exigem a discrição quanto a acontecimentos desagradáveis ocorridos internamente, muitos artistas se mantêm sem exposição à mídia para evitar vazamento de informações pessoais. Desse modo, esses grupos, ao se encontrarem, recolhidos em seus ambientes particulares, colocam à mesa: reclamações, chororôs e atitudes inapropriadas tomadas pelo outro. Contudo, elogios, desculpas e agradecimentos nessa hora serão bem-vindos e salutares. É o tal do diálogo.

E, por fim, o poeta joga a pá de cal: “Quantas vezes nós fingimos alegria sem o coração sorrir”. Fato. Há uma infinidade de criaturas perdidas em meio a sorrisos amarelos, cumprimentos obrigados, moles apertos de mão. Argh! Depois de um tempo convivendo com o antônimo deslavado da sinceridade de sujeitos que aparecem pelo caminho, concluí: a hipocrisia é uma proteção das fragilidades humanas. Portanto, quando precisar ser hipócrita, que eu possa analisar melhor e recuar. É um caminho duro, doloroso, solitário e quase sem volta. (Adriane Lorenzon)

 
Escrito por:Adriane Lorenzon - 28/10/2011 17:42
 
Categoria(s):  autoconhecimento, interações sociais, viva melhor
Tags: falsidade, felicidade ilusória, fingimento, hipocrisia, ilusão
 
 



Crie seu Blog   |   Todos os Blogs   |   Página Inicial   |   Termos de Uso   |   Contato
Copyright © 2009 - Blogs Online - Todos os direitos reservados